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5.11.11

O toque de Mallu Magalhães.



Desde o surgimento de Mallu Magalhães como fenômeno na internet já se passaram 4 anos. Na época, Mallu tinha uma imagem de garota confusa, aquela introspecção desajeitada bem comum a muitos prodígios. A pergunta que muitos se faziam era se Mallu era de fato uma garota com muitas qualidades que estavam prestes a desabrochar ou se ela era só esquisita mesmo. Depois de dois discos, a resposta começou a ficar mais clara.

“Pitanga”, o terceiro LP de Mallu, é um reflexo do amadurecimento da sua autora, tanto como mulher quanto como compositora. O disco de 12 faixas teve o processo de gravação amplamente documentado por Mallu em seu blog e, como a própria sempre diz em entrevistas, “a música contida no trabalho reflete seus sentimentos no período”. E ao ouvirmos “Pitanga” enxergamos apenas uma coisa: a garota está apaixonada.

Sim, Mallu respira, compõe e canta Marcelo Camelo. Da sua forma inocente e brincalhona, a garota canta um sentimento puro e bonitinho em frases como “olha só moreno do cabelo enroladinho/vê se olha com carinho pro nosso amor/eu sei que é complicado amar tão devagarinho/e eu também tenho tanto medo”. Em outras, Mallu mostra uma entrega não tão juvenil cantando coisas como “quero me bordarhttp://www.blogger.com/img/blank.gif em você/quero virar sua pele/quero fazer uma capa/quero tirar sua roupa”. E assim o disco segue com infinitas juras de amor da apaixonada Mallu.

A relação estreita dos dois fica ainda mais clara na sonoridade de “Pitanga”. Camelo assina a produção do disco e muitas das faixas têm arranjos que caberiam perfeitamente dentro de “Ventura” – a pérola do Los Hermanos -, ou em seu recente disco solo “Toque Dela“. Camelo talvez seja o pai do “indie-sambinha”, tão em voga nos dias de hoje e que também está presente na música de Mallu. Além do samba de menino branco da PUC, Camelo traz para o disco arranjos de metais melódicos e emotivos e uma sensibilidade para pequenos detalhes que fazem o disco uma delícia para se ouvir em fones de ouvido. Mas não é como se Camelo fizesse deste um disco do Los Hermanos com uma convidada especial. Outros detalhes de produção criam um clima pueril e lúdico, que ainda faz parte do universo de Mallu. Outros detalhes tornam o disco ainda mais dela, como as letras meio em inglês, meio em português, os banjos, escaletas e os assovios.

Sobre a parte musial que cabe à moça, tudo está nos conformes. As composições são delicadas e sensíveis. Os vários instrumentos tocados por Mallu se combinam em momentos bonitos. Se há alguma coisa a reclamar do disco é que algumas músicas são extremamente curtas. Existem boas ideias que poderiam ser exploradas com mais desenvoltura e criar resultados mais acachapantes. O disco tem 12 músicas e apenas 32 minutos de duração. Isso ainda denota um pouco de insegurança.

Mas pequenos deslizes à parte, “Pitanga” é muito gostoso. Estaremos diante da nossa versão tupiniquim do século XXI de Yoko Ono/John Lennon, June Carter/Johnny Cash, Elis Regina/Ronaldo Bôscoli e outros tantos casais que entraram para a história fazendo música juntos? Contanto que o relacionamento não se torne um caos à la Ike/Tina, o futuro parece promissor para a parceria.

13.12.09

Safra tipo reserva.


O título acima refere-se à repercussão, entre público e crítica, do trabalho de Mallu Magalhães. E não à toa. Nos últimos dois anos, com apenas dois albúns lançados, Mallu chegou e se transformou rapidamente de fenômeno digital em figurinha fácil da mídia, inclusive com aparições dominicais no envelhecido Faustão. Neste curto espaço de tempo, já conhecemos duas Mallus: a menina adolescente e a adolescente mulher, o “Mallu Magalhães” e o também “Mallu Magalhães”, discos com o mesmo título porém com caminhos que, se não seguem direções opostas, já sinalizam novos horizontes musicais. Culpa talvez do efeito tão bem aplicado aos bons vinhos: quanto mais envelhecido, melhor. Porém, mais importante que o tempo, o tipo de uva, a terra e a temperatura ambiente são fundamentais para colher uma boa safra. Ingredientes que Mallu reúne com facilidade. Mallu Magalhães, que incialmente fez muito sucesso impulsionada pelos milhões de acessos a sua página no MySpace, parece saber exatamente o caminho a percorrer, como se já tivesse observado com velha sabedoria o vácuo sonoro que toma conta dos dials país afora. Mas Mallu é precoce mesmo e, como bom vinho, bastante sensível aos elementos que lhe rodeiam. Aos 12 anos de idade já cantava e escrevia suas primeiras estrofes, influenciada, em grande parte, pela paixão do pai pelo bom e velho rock’n’roll. E parece não haver outra explicação para Mallu, três anos depois, se lançar ao mundo com composições próprias cantadas na língua nativa do rock – o inglês – e tanto se parecer com Bob Dylan (descaradamente sua grande referência), Johnny Cash ou Belle & Sebastian. Dessa época, os grandes sucessos da rede foram “Tchubaruba” e “J1”, embalados por sua voz de doce menina e o violão com jeito de roda de amigos à beira da fogueira. Mas Mallu “envelhece” e caminha livre com o lançamento de “Mallu Magalhães” (2009). Apesar do título homônimo, as diferenças entre os dois discos são marcantes. O primeiro chegou às mãos do produtor Mário Caldato Jr. (Marcelo D2, Seu Jorge e Bebel Gilberto) praticamente pronto. O segundo ganhou a influência direta do músico e produtor Kassin (Caetano Veloso, Vanessa da Mata e Thalma de Freitas), que acompanhou de perto todos os ensaios. O primeiro percorreu os sonhos da menina adolescente no country “Don’t you leave me” e na poética “Get to Denmark”. O disco recém-lançado é preenchido de menos temor e mais amor trazidos pela convivência e namoro com o ex-Los Hermanos Marcelo Camelo, cuja presença é sentida no piano rock de “My Home is My Man” e nos assovios do próprio em “Compromisso”. Além do amadurecimento artístico e pessoal de Mallu, estes dois elementos são suportes fundamentais no seu passeio além-folk rock, com pitadas de metais no reggae “Shine Yellow”, no samba pop de “Versinho de Número Um” e até na delicada – valsa! – “É você que tem”. Mallu Magalhães, passou com louvor no temido teste do segundo disco, tanto que de independente chegou a uma “major” como a Sony Music. Mas isto é enfaticamente por merecimento. Mallu faz jus à barulheira da mídia e fãs com seu sucesso precoce e mostra não só aos donos do mercado fonográfico como também aos seus consumidores que o binônio talento artístico/trabalho depurado (afinal, ela começou cedo!) sacode qualquer estrutura empoeirada.